Pular para o conteúdo
Desenrola Capital
02 · Crédito

CET: como comparar empréstimos e não pagar a mais

Aprenda a usar o Custo Efetivo Total (CET) para comparar empréstimos: o que entra na conta, onde achar o número e um exemplo em reais lado a lado.

Danieli Silva dos SantosPublicado 8 min de leitura
CET: como comparar empréstimos e não pagar a mais
Ilustração: Desenrola Capital · Crédito

Para comparar empréstimos, olhe o CET (Custo Efetivo Total), não a taxa de juros. O CET é a taxa que junta, num número só, tudo o que você paga na operação: juros, tarifas, tributos como o IOF, seguros e outras despesas. Duas propostas com a mesma taxa de juros podem ter CETs bem diferentes, e a mais barata é a de menor CET para o mesmo valor e o mesmo prazo.

Este guia é para quem recebeu duas ou mais ofertas de crédito e quer saber qual custa menos de verdade. Ao terminar, você vai saber onde achar o CET, como conferir o valor total pago e quais perguntas fazer antes de assinar. Não indicamos banco: a ideia é você ler qualquer proposta sozinho.

Desenrola rápidoleitura de 30 s

  • Peça o CET anual e o demonstrativo de cálculo antes de assinar qualquer proposta.
  • Compare propostas com o mesmo valor e o mesmo prazo, pelo CET e pelo total pago.
  • Pergunte o que está embutido (seguro, tarifa) e recuse o que você não pediu.

Resposta curta: compare pelo CET, não pela taxa de juros

A taxa de juros é só o preço do dinheiro emprestado. Ela não conta a tarifa de cadastro, o IOF, o seguro embutido na parcela ou o serviço de terceiro que a instituição repassa para você. O CET conta.

A regra está na Resolução CMN nº 4.881/2020, em vigor desde 1º de fevereiro de 2021. Segundo a norma, o CET é uma taxa que representa, de forma consolidada, os encargos e as despesas da operação. Ela vale para crédito a pessoas físicas, empresários individuais, microempresas e empresas de pequeno porte.

O que entra no CET: juros, IOF, tarifas e seguros

Pelo art. 3º da Resolução 4.881, o cálculo do CET deve considerar o valor do crédito e tudo o que for cobrado de você:

  • Juros e amortizações;
  • Tarifas, como a de cadastro;
  • Tributos, principalmente o IOF;
  • Seguros vinculados à operação;
  • Outras despesas, inclusive serviços de terceiros contratados pela instituição e pagos por você, mesmo que não estejam somados ao valor do crédito.

O IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) no crédito para pessoa física, segundo o Decreto nº 6.306/2007 consultado em outubro de 2026, é de 0,0082% ao dia sobre o valor emprestado, limitado a 365 dias, mais uma alíquota adicional de 0,38% cobrada uma vez, qualquer que seja o prazo. Em 2025 o decreto mudou as alíquotas para empresas; para pessoa física, o texto vigente mantém esses percentuais. Quem cobra e recolhe o IOF é a própria instituição, dentro do contrato.

Onde o banco é obrigado a mostrar o CET

A Resolução 4.881 obriga a instituição a:

  1. Informar o CET antes da contratação, junto com um demonstrativo de cálculo (art. 7º).
  2. Mostrar no demonstrativo o valor em reais de cada componente (juros, tarifas, tributos, seguros) e o percentual de cada um sobre o total devido, além da soma das parcelas (art. 7º, §1º).
  3. Colocar o demonstrativo em destaque no contrato, se você contratar (art. 7º, §3º).
  4. Divulgar o CET na publicidade sempre que o anúncio mostrar a taxa de juros (art. 8º).

O CET deve ser expresso como taxa percentual anual, com duas casas decimais (art. 4º). Muitos bancos mostram também o CET mensal, o que ajuda a comparar com a taxa de juros ao mês.

O Código de Defesa do Consumidor (art. 52) também exige que, no crédito ao consumidor, você seja informado antes sobre a taxa efetiva anual de juros, o número de parcelas e a soma total a pagar.

Exemplo em R$: duas ofertas com a mesma taxa e custos diferentes

Na prática

Ana precisa de R$ 5.000 e recebeu duas propostas, ambas a 3,5% ao mês em 12 parcelas (valores hipotéticos; o IOF ficou de fora porque entraria nas duas).

Proposta A: financia só os R$ 5.000. Parcela de R$ 517,42. Total pago: R$ 6.209,04. CET de 3,5% ao mês, cerca de 51,11% ao ano.

Proposta B: soma R$ 300 de seguro e R$ 200 de tarifa ao valor financiado. Ana recebe os mesmos R$ 5.000, mas deve R$ 5.500. Parcela de R$ 569,16. Total pago: R$ 6.829,92. CET de cerca de 5,16% ao mês, ou 82,85% ao ano.

Mesma "taxa de 3,5%", e a proposta B custa R$ 620,88 a mais. Só o CET mostra isso.

ItemProposta AProposta B
Dinheiro que Ana recebeR$ 5.000,00R$ 5.000,00
Valor financiadoR$ 5.000,00R$ 5.500,00
Taxa de juros3,5% ao mês3,5% ao mês
Parcela (12x)R$ 517,42R$ 569,16
Total pagoR$ 6.209,04R$ 6.829,92
CET mensal (aprox.)3,50%5,16%
CET anual (aprox.)51,11%82,85%

Taxa mensal x taxa anual: a conversão que confunde

Juros compostos não se multiplicam por 12. Uma taxa de 3,5% ao mês não vira 42% ao ano: vira 51,11%, porque cada mês o juro incide sobre o saldo já acrescido do mês anterior. A conta é (1,035 elevado a 12) menos 1.

Por isso, compare sempre mensal com mensal e anual com anual. Se uma proposta mostra CET anual e a outra só mensal, peça a outra forma ao banco. E lembre: a Resolução 4.881 exige o CET anual; ele precisa estar no demonstrativo.

Seguro embutido e venda casada

O seguro prestamista (que paga a dívida nas situações previstas na apólice) costuma vir já incluído na proposta. Ele pode fazer sentido para alguns, mas é um produto à parte.

O CDC (art. 39, I) proíbe condicionar o fornecimento de um produto ou serviço à compra de outro. É a chamada venda casada. Na prática:

  1. Pergunte se a proposta tem seguro ou qualquer serviço adicional.
  2. Peça a simulação sem esses itens e compare o CET das duas versões.
  3. Se quiser o seguro, pergunte se pode escolher outra seguradora.
  4. Se o banco disser que sem seguro não há empréstimo, registre o protocolo e reclame no SAC, na ouvidoria, no Banco Central ou no Procon.

Cuidado

Proposta que cobra "taxa", "seguro" ou "IOF" por Pix antes de liberar o dinheiro não é custo de empréstimo: é golpe. Custos legítimos entram no contrato e no CET. Veja os sinais do golpe do empréstimo.

Checklist antes de assinar

  1. Confira se as propostas têm o mesmo valor líquido (o que cai na conta) e o mesmo prazo.
  2. Anote o CET anual de cada uma e o valor total pago.
  3. Abra o demonstrativo e veja quanto é juro, IOF, tarifa e seguro.
  4. Recuse item que você não pediu e peça nova simulação.
  5. Calcule se a parcela cabe no orçamento com folga, não no limite.
  6. Pense no que esse empréstimo resolve: se for para trocar dívida cara por mais barata, compare com o CET da dívida atual.
  7. Guarde a proposta e o contrato assinado.

Se a ideia é trocar uma dívida cara, há caminhos sem pegar dinheiro novo, como a portabilidade de crédito ou, para quem tem carteira assinada, o consignado CLT. E se o problema é o limite da conta, veja como sair do cheque especial.

Perguntas frequentes

O banco é obrigado a informar o CET antes da contratação?

Sim. A Resolução CMN 4.881/2020 manda informar o CET e apresentar o demonstrativo de cálculo antes da contratação, com o valor em reais de cada componente. Se assinar, o demonstrativo deve aparecer em destaque no contrato.

CET mensal ou anual: qual devo olhar?

Qualquer um, desde que compare igual com igual. A norma exige o CET anual, que é o número oficial. O mensal ajuda a comparar com a taxa de juros ao mês. Nunca compare o CET mensal de uma proposta com o anual de outra.

Posso recusar o seguro do empréstimo?

O CDC proíbe a venda casada, ou seja, condicionar o empréstimo à compra de outro produto. Peça a simulação sem seguro e compare. Se o banco insistir que é obrigatório, peça a justificativa por escrito e reclame nos canais oficiais.

Onde vejo as taxas médias praticadas pelos bancos?

O Banco Central publica, na área de Estatísticas, o relatório de taxas de juros por modalidade de crédito e por instituição. Use como referência para saber se uma oferta está muito acima da média, lembrando que a taxa média não inclui todos os custos do CET.

Parcela menor significa empréstimo mais barato?

Não necessariamente. Parcela menor muitas vezes vem de prazo maior, e prazo maior costuma aumentar o total pago. Compare o valor total e o CET, não só a parcela.

Próximo passo

Hoje, abra a proposta de crédito que você tem em mãos e procure o CET anual e o valor total. Não achou? Peça o demonstrativo ao banco por escrito. Se você já tem um empréstimo caro, o passo seguinte é ver se dá para levá-lo para outro banco: portabilidade de crédito, passo a passo.

Fontes oficiais

CompartilharWhatsAppX

Quem escreve

Danieli Silva dos Santos

Responsável pelo Desenrola Capital

Danieli Silva dos Santos é a responsável legal pelo Desenrola Capital e pela publicação dos conteúdos do site, que têm caráter educativo.

Conheça a autoraComo checamos